A última coisa que Brianna Lafferty se lembra de ter ouvido foi uma pergunta. “Você está pronta?”
A norte-americana tinha 25 anos e estava em um hospital no Texas, nos Estados Unidos. Seu corpo, debilitado depois de anos convivendo com uma doença neurológica rara e de uma sequência extrema de insônia, parecia ter chegado ao limite.
Brianna diz que aceitou. Então, tudo ficou escuro.
O que aconteceu depois durou, segundo os relatos sobre o caso, cerca de oito minutos no relógio. Para ela, porém, pareceu muito mais. Brianna afirma ter perdido os sinais vitais e sido considerada clinicamente morta antes de ser reanimada. Quando voltou, tinha uma história difícil de explicar e uma certeza pessoal que mudaria completamente a maneira como enxergava a vida e a morte.
Hoje, aos 33 anos, ela descreve aquele intervalo como uma experiência de quase morte marcada pela sensação de ter deixado o próprio corpo, pela ausência de dor e por uma percepção de que o tempo simplesmente havia desaparecido.
Oito minutos que, segundo ela, mudaram tudo.
Brianna passou anos doente
Para entender como Brianna chegou àquele hospital, é preciso voltar vários anos.
Ela convivia com distonia mioclônica, um distúrbio neurológico raro que provoca espasmos, contrações musculares involuntárias e outros problemas de movimento. Os sintomas começaram ainda na juventude e afetaram progressivamente sua rotina.
Dores, tremores e fadiga passaram a limitar atividades que antes faziam parte de sua vida.
Pouco antes do episódio, Brianna relata ter enfrentado uma crise extrema de insônia. Durante quatro dias, praticamente não conseguiu dormir. Seu estado de saúde piorou e ela acreditava que o organismo não suportaria muito mais.
Foi ali que, segundo ela, seu corpo “desistiu”.
Depois da pergunta, Brianna só viu escuridão
Brianna conta que ouviu alguém perguntar se estava preparada. Em seguida, mergulhou em uma escuridão completa.
Mas ela afirma que não deixou de perceber o que acontecia. Pelo contrário.
A sensação descrita foi a de se separar repentinamente do próprio corpo. Ela já não reconhecia a identidade física que carregava até então, mas ainda se sentia consciente.
Brianna descreve aquele momento como uma experiência de profunda paz e clareza. A sensação de estar presa ao corpo teria desaparecido e, no lugar dela, surgiu uma percepção de estar completamente viva.
É a partir daí que sua história ganha contornos ainda mais incomuns.
O relógio marcou oito minutos; para ela, pareceram meses
No hospital, teriam se passado aproximadamente oito minutos.
Na percepção de Brianna, o tempo deixou de funcionar como antes.
Quando retornou ao próprio corpo, afirma ter sentido como se tivesse ficado ausente durante meses.
Durante a experiência, diz ter entrado em um ambiente no qual passado, presente e futuro pareciam perder o significado.
Tudo acontecia simultaneamente e, ainda assim, havia uma espécie de ordem.
Brianna também relata ter encontrado seres que pareciam estranhamente familiares, embora não soubesse dizer se eram humanos. Em determinado momento, teve a impressão de compreender o universo como uma estrutura ligada a números.
Em relatos mais detalhados, ela descreveu cenários ainda mais específicos. Conta ter chegado a uma cerca de arame farpado, enquanto outros seres conseguiam atravessá-la. Do outro lado, teria visto uma montanha, uma fazenda e uma casa.
Em outra etapa da experiência, sete seres teriam apresentado a ela um pergaminho. Antes que pudesse descobrir o conteúdo, porém, sua percepção de si mesma retornou.
E, com ela, a consciência do próprio corpo.
Brianna abriu os olhos, mas voltar estava longe de ser simples
Para Brianna, a experiência parecia ter durado meses.
Naquele quarto de hospital, haviam transcorrido apenas oito minutos.
Mas a parte mais difícil talvez estivesse apenas começando.
Brianna afirma que precisou reaprender a falar e andar. Passou quatro dias no hospital tentando compreender não apenas as consequências físicas do episódio, mas também aquilo que acreditava ter experimentado.
A recuperação se prolongou e os problemas neurológicos não desapareceram imediatamente.
Por isso, existe uma aparente contradição em sua história: a experiência fez com que ela perdesse grande parte do medo da morte, mas não a vontade de evitar passar por aquilo novamente.
O problema, segundo Brianna, não seria morrer.
Seria ter que voltar e enfrentar outra recuperação.
O medo que carregava antes perdeu força
Antes daqueles oito minutos, Brianna afirma que temia a morte.
Depois, passou a interpretá-la de maneira completamente diferente.
Para ela, a consciência não desapareceria junto com o corpo. A morte seria uma transformação, e não um ponto final.
Essa é uma interpretação espiritual e pessoal da experiência, sem comprovação científica. Ainda assim, para Brianna, o efeito foi concreto.
Coisas que antes pareciam importantes perderam valor. Medos deixaram de exercer o mesmo controle e algumas ambições passaram a parecer menores.
Ela diz ter retornado com uma sensação de propósito e uma nova reverência pela vida e pela morte.
O que a ciência consegue explicar?
Histórias como a de Brianna não são exclusivas.
Há décadas, pessoas reanimadas após situações médicas críticas relatam experiências que podem envolver sensação de sair do corpo, alterações na percepção do tempo, paz intensa, imagens vívidas e encontros com pessoas ou seres.
São as chamadas experiências de quase morte, conhecidas pela sigla EQM.
O fato de esses relatos existirem, entretanto, não significa que a ciência tenha comprovado a existência de vida após a morte ou que a consciência possa sobreviver independentemente do cérebro.
Existem hipóteses neurológicas e fisiológicas para explicar parte desses fenômenos, relacionadas às alterações extremas pelas quais cérebro e organismo passam em situações críticas. O tema, porém, continua despertando pesquisas e debates.
No caso de Brianna, existe uma distinção fundamental: o relato da experiência é dela; a conclusão de que a consciência continuou existindo após a morte pertence à sua interpretação pessoal e espiritual.
Oito minutos acabaram mudando também sua profissão
Brianna voltou daquele hospital diferente.
Não apenas porque precisava reconstruir habilidades físicas, mas porque a experiência começou a influenciar aquilo que faria com a própria vida.
Depois de enfrentar anos de doença e recuperação, passou a trabalhar com pessoas que vivem situações que antes despertavam alguns de seus maiores medos.
Ela começou a auxiliar pessoas com doenças crônicas, em processos de luto, em questões espirituais e diante do fim da vida.