Dor de cabeça frequente, zumbido no ouvido, sensação de ouvido tampado, estalos ao abrir a boca e dificuldade para mastigar podem parecer sintomas de problemas diferentes. No entanto, em alguns casos, eles podem estar relacionados à Disfunção Temporomandibular (DTM), condição que afeta a articulação responsável pelos movimentos da mandíbula.
Embora seja comum, a DTM ainda passa despercebida por muitos pacientes. Uma metanálise publicada em 2025 estimou que aproximadamente 29,5% da população mundial apresenta algum grau da condição. No Brasil, uma revisão sistemática com metanálise apontou prevalência de 33,6%, o equivalente a cerca de um em cada três brasileiros.
DTM pode passar anos sem diagnóstico
A falta de informação sobre a doença pode fazer com que pacientes convivam durante anos com dores recorrentes sem descobrir a origem dos sintomas.
Segundo a cirurgiã bucomaxilofacial Dra. Erika Kugler Nóbrega, muitos pacientes chegam ao consultório depois de procurar diferentes especialistas.
“Recebo pacientes que já passaram por neurologistas, otorrinolaringologistas, fisioterapeutas e outros especialistas investigando dores de cabeça, zumbidos ou dores no ouvido. Em muitos casos, a DTM era justamente a hipótese que ainda não havia sido considerada”, afirma.
Sintomas não ficam restritos à mandíbula
Apesar de afetar diretamente a articulação temporomandibular, a DTM pode provocar manifestações em diferentes regiões da cabeça e do pescoço.
A especialista explica que a relação ocorre porque os músculos envolvidos na mastigação possuem conexões importantes com outras estruturas da cabeça e do pescoço.
“Quando dor de cabeça ou zumbido aparecem acompanhados de dor na mandíbula, estalos ou dificuldade para mastigar, a articulação temporomandibular deve fazer parte da investigação”, explica.
Zumbido pode ter relação com a DTM
A relação entre DTM e zumbido está entre as principais dúvidas dos pacientes. A literatura científica aponta uma associação entre as duas condições em parte dos casos.
Isso, porém, não significa que todo zumbido tenha origem na mandíbula. Por esse motivo, a avaliação clínica é importante para investigar as possíveis causas dos sintomas e definir a melhor abordagem para cada paciente.
Estalo na mandíbula nem sempre significa doença
O estalo ao abrir ou fechar a boca também merece atenção, mas não significa necessariamente que exista uma alteração.
Quando o barulho aparece sozinho, sem outros sintomas, ele pode não indicar um problema. A situação muda quando o estalo vem acompanhado de dor, limitação dos movimentos, travamento da mandíbula ou alteração na mordida.
Nesses casos, a recomendação é procurar avaliação especializada.
Estresse e bruxismo podem agravar os sintomas
O estresse também pode influenciar a intensidade dos sintomas. Durante períodos de maior tensão, algumas pessoas passam a apertar ou ranger os dentes, aumentando a sobrecarga sobre a articulação temporomandibular.
Segundo a Dra. Erika, entretanto, o bruxismo não deve ser considerado, isoladamente, a causa da DTM.
“Nem toda pessoa com bruxismo desenvolve DTM, assim como nem toda DTM é provocada pelo bruxismo”, afirma.
Maioria dos casos não precisa de cirurgia
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a maioria dos pacientes com DTM não precisa passar por cirurgia.
O diagnóstico ocorre principalmente por meio da avaliação clínica. Quando necessário, o especialista pode solicitar exames de imagem, como ressonância magnética, tomografia computadorizada ou radiografias.
O tratamento depende das características de cada caso e pode envolver fisioterapia, placas estabilizadoras, medicamentos, exercícios específicos, mudanças comportamentais e procedimentos minimamente invasivos.
A cirurgia costuma ficar restrita a situações específicas, principalmente quando existem alterações estruturais ou quando as alternativas conservadoras não apresentam os resultados esperados.
Quando é necessário procurar ajuda?
Alguns sinais indicam que o paciente deve buscar avaliação especializada. Entre eles estão dor persistente na mandíbula ou no rosto, estalos acompanhados de dor, travamentos, dificuldade para abrir ou fechar a boca e dor durante a mastigação.
Também merece atenção a alteração repentina da mordida, além de dores de cabeça frequentes associadas a sintomas na mandíbula e zumbido ou sensação de ouvido tampado sem uma causa otológica identificada.
“A mandíbula não serve apenas para mastigar. Quando ela adoece, pode comprometer o sono, a alimentação, a comunicação e a qualidade de vida. Quanto mais cedo identificamos a DTM, maiores são as chances de controlar os sintomas e evitar que a dor se torne crônica”, conclui a especialista.